Sociedade

Registados mais de dez mil casos de perturbação mental

Alexa Sonhi |

Mais de dez mil casos de doenças mentais foram registados no primeiro semestre deste ano, nas província de Luanda, Huíla, Benguela, Cabinda, Huambo e Malanje, revelou ontem a coordenadora do Programa Nacional de Saúde Mental.

Em Luanda o Dia Mundial da Saúde Mental foi assinalado com uma mesa redonda que teve como pano de fundo a prevenção do stress laboral
Fotografia: João Gomes | Edições Novembro

Massoxi Vigário prestou esta informação no quadro do Dia Mundial da Saúde Mental, assinalado ontem. A data foi assinalada com uma mesa-redonda sobre “Saúde mental no trabalho”, "Prevenção e atenção de stress laboral”,  “Motivação como factor de aumento de produtividade “ e “Boas práticas, atenção à saúde mental e emocional dos trabalhadores”.
Massoxi Vigário disse que nos últimos meses os casos de transtornos mentais têm aumentado significativamente, fruto dos vários problemas sociais que se vive em Angola. Este ano a data é celebrada sob o signo “Saúde mental e bem estar no local de trabalho”.
A coordenadora do programa sublinhou que este número não reflecte a situação geral do país, porque as cinco provinciais referidas servem de apenas de experiência piloto  de um programa  criado em 2013 denominado “Rede Integrado de Serviços de Saúde Mental” para auferir nas principais  cidades “como estamos em termos de saúde mental”.
“Notamos que as pessoas já ganham o hábito de procurar os serviços de saúde mental para saber o que sentem e recebem acompanhamento quer para si, quer para os seus familiares ou amigos. Embora o número de doentes mentais esteja a aumentar, os nossos técnicos estão a trabalhar e a população já percebe a importância de frequentar as unidades sanitárias”. Sobre os principais transtornos mentais, a coordenadora do Programa Nacional de Saúde Mental disse que “nos hospitais aparece de tudo um pouco”.  
“Existem aqueles pacientes que apenas aparecem no período de sofrimento com quadros depressivos leves, moderados e graves, e outros que aparecem já com quadro total de descompensação bem longe da sua realidade”. “Neste caso estamos a falar de neuroses, psicoses que impedem a pessoa de cuidar da sua higiene ou das suas responsabilidades no serviço, escola e lar. Já tivemos pessoas que, fruto das dúvidas em determinadas fase da vida, procuram os nossos serviços para saber como lidar com os filhos, marido ou outros problemas do seu dia a dia”, disse. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que em 2020 a depressão vai ser uma das principais patologias com consequências mortais no seio da população mundial.
Segundo a coordenadora do Programa Nacional de Saúde Mental, “isto reflecte o  dia a dia”, sobretudo na classe trabalhadora. "Em qualquer situação de saúde leva-se em conta os factores de risco ou as causas, e grande parte dos pacientes que dão entrada nos nossos serviços o motivo é o stress laboral.
Por isso, prosseguiu Massoxi Vigário, os responsáveis de empresas devem trabalhar na melhorias das condições de trabalho dos seus funcionários, desde a comodidade ao próprio ambiente laboral entre os colegas. Sobre o aumento de casos de autismo, Massoxi Vigário disse que autismo faz parte do síndrome global de desenvolvimento mental e é considerada uma neuropatologia. “O número tende a crescer, porque no país  ainda não temos recursos suficientes para assistir os pacientes acometidos por esta doença”.
“Mas existe boa vontade dos pais e familiares que convivem com esta patologia todos os dias. Tanto é assim, que existem já três associações que trabalham para minimizar as sequelas da doença. Nós sector da saúde, agradecemos esta iniciativa e fazemos tudo para apoiar estas associações a minimizar os sinais da patologia”, disse a coordenadora do Programa Nacional de Saúde Mental.  
Sobre a esquizofrenia, outro transtorno muito comum nos serviços de saúde mental, Massoxi Vigário explicou que a patologia faz parte das três principais causas de doença mental no país e no mundo.

Uma em cada cinco pessoas no trabalho tem problemas de stress

O representante da OMS em Angola disse que uma em cada cinco pessoas, no local de trabalho, tem problemas relacionados com a saúde mental.
Hernando Agudello sublinhou que o Dia Mundial da Saúde Mental traduz o reconhecimento e atenção aos problemas ligados à saúde mental. “A OMS considera que o Dia Mundial da Saúde Mental oferece uma grande oportunidade para incentivar um debate sobre os problemas do quotidiano, promover práticas que nos orientem a reduzir comportamentos negativos, capacitar os indivíduos e agir sobre  as  causas das doenças mentais no local de trabalho”, disse.
Hernando Agudello acrescentou que a globalização e as tecnologias do século XXI têm contribuído para o aumento de stress associado ao trabalho, além de outros conflitos e distúrbios.
O representante da OMS frisou que o estigma e a fraca sensibilização para a abordagem correcta destes problemas aumentam a barreira e afectam a equidade no trabalho. Frequentemente, pessoas com distúrbios mentais escondem os seus problemas de saúde por falta de um espaço amigável ou gratificante, por terem medo da discriminação”, salientou.
Hernando Agudello explicou que a escassez de informação pública aliada ao estigma e à questão de carácter cultural são algumas destas barreiras, que mais impedem as pessoas de procurar ajuda e concorrem para mais de 50 por cento dos casos sem tratamento médico. Estes problemas têm um impacto negativo na condição laboral dos trabalhadores, agravando o absentismo, a produtividade e o desemprego, além de outras implicações.

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