Sociedade

Seca força abandono escolar no Cunene

Alunos do ensino primário e secundário de algumas localidades do Cunene, sobretudo rapazes, estão a abandonar as aulas para se dedicarem à pastorícia, em consequência da seca que assola a província des-de Outubro do ano passado. Segundo apurou a Angop, esta situação vive-se, essencialmente, na comuna do Oncocua, município do Curoca, no Evale (Cuanhama) e em Ontchinjao (Cahama), o que preocupa as autoridades.

Muitas crianças deixaram de estudar para se dedicarem à pastorícia
Fotografia: Edições Novembro

O administrador comunal interino do Ombwa, Adriano Samba, explicou ontem que devido à estiagem muitas crianças estão a ser obrigadas a abandonar os estudos, para seguir os pais na transumância (deslocação de pastores e rebanhos na procura de pasto) e de alimentos para o sustento da família.
“As crianças abdicam dos estudos porque, em tempo de seca, os pais, criadores, tornam-se nómadas, uma vez que têm de percorrer longas distâncias (por vezes mais de 100 quilómetros) até encontrarem comida e água para o gado”, esclareceu.
Gelso Katchihaluoko, professor, disse ser complicado leccionar no Ombwa pelo facto de os alunos faltarem muito, por viverem longe e, por serem obrigados, pelos pais, a dedicarem-se ao pasto, principal fonte de sustento da localidade.
“Normalmente, as salas de aula da iniciação à sexta classe são compostas por 15 alunos, mas a maioria não chega até ao final do ano, porque acompanham os pais na transumância”, lamentou.
Até há bem pouco tem- po, referiu o professor, a administração ajudava com merendas escolares, mas nos últimos meses deixou de o fazer, o que provocou o aumento do índice de abandono escolar.
A administradora municipal da Cahama, Maria de Lourdes de Oliveira, afirmou que com fome dificilmente as pessoas assimilam a matéria e a maioria das comunidades rurais do Cunene não vive sem o pasto e a agricultura.
“A nível da Cahama, 82 crianças abandonaram as escolas para acompanharem os pais nas áreas de transumância, mas estas não são exactamente do nosso município, são pessoas que vieram da Namíbia, do Virei (província do Namibe) e dos Gambos (Huíla)”, explicou.
De acordo com a responsável, os dados referem-se a este ano e algumas destas crianças, inclusive do sexo feminino, também são provenientes do Curoca e de Ombanja, localidades que recentemente receberam feno para o gado em transumância e que em breve beneficiarão de novos furos de água.
Já o administrador co-munal do Evale (município de Ondjiva), Porfílio Vatileni, disse ser difícil controlar a situação, por se tratar de comunidades ou povoações que vivem da agropecuária há centenas de anos e não admitem que nenhuma outra actividade se sobreponha à pastorícia.
“Estamos com muitas crianças fora do sistema de ensino devido à seca, visto que são obrigadas a procurar alternativa para sobrevivência. A transumância é a primeira opção, porque a agricultura fica nula”, resumiu.

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