Sociedade

Sindicato confirma ameaças aos jornalistas que cobrem "Caso CNC"

César Esteves

Alguns jornalistas que cobrem casos mediáticos, sobretudo envolvendo gestores públicos, estão a ser alvo de ameaças por parte de familiares destes, que entendem que as matérias jornalísticas estão a manchar o nome do seu parente, denunciou ontem, em conferência de imprensa, em Luanda, o Sindicato dos Jornalistas Angolanos (SJA).

Secretário-geral Teixeira Cândido sugere aos jornalistas para fazerem queixa à Polícia
Fotografia: Alberto Pedro

O secretário-geral da agremiação, Teixeira Cândido, considerou tal comportamento, observado agora no caso “CNC”, que envolve o ex-ministro dos Transportes, Augusto Tomás, como uma obstrução à liberdade de imprensa.

“Essas ameaças estão a levar os colegas a temerem pela sua integridade física”, ressaltou. O sindicalista disse ser inevitável a divulgação da imagem de pessoas conhecidas, que exerceram funções no aparelho do Estado, tendo acrescentado ser este o ónus de quem ocupa cargos públicos.
Teixeira Cândido acrescentou que, se por um lado, há o privilégio de se ter o passaporte diplomático, viajar em carro protocolar e ter guarda, por outro lado, há também o ónus, que passa pela sua mediatização quando estiver envolvido em casos que o comprometem.
“Quer os familiares quer a própria pessoa em causa têm de conviver também com isso. Não podemos usufruir apenas dos benefícios e não olharmos para a outra parte”.
Teixeira Cândido apelou aos jornalistas a não hesitarem em apresentar queixa contra os ameaçadores, caso voltem a agir da mesma maneira.
O secretário-geral do SJA lembrou que estamos num Estado democrático e de direito, em que a imprensa está legitimada, nos termos da Constituição, na Lei de Imprensa, para exercer a sua actividade com independência, imparcialidade e, sobretudo, com verdade, acerca de todos os factos de interesse público.
Nos julgamentos, prosseguiu, os jornalistas têm estado a fazer apenas o seu trabalho, que é de narrar as incidências dos actos, as eventuais acusações, respostas às acusações quando os réus proclamam a sua inocência.
“O que os jornalistas fazem durante os julgamentos não é mais do que narrar todas as incidências, para que depois o público tire as suas ilações”, realçou, para acrescentar que o jornalista não processa nenhuma pessoa e não julga ninguém.
“Os familiares e quaisquer outras pessoas têm de compreender que é essa a nossa actividade”, concluiu.
A jornalista Luísa Rogério, eleita recentemente membro da Comissão Executiva da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) sublinhou que as ameaças feitas a jornalistas representam um perigo para o profissional, do ponto de vista físico e psicológico.
Luísa Rogério disse que durante muito tempo os jornalistas foram atormentados pelo fantasma da autocensura, estando muitos neste momento a tentar libertar-se desse mal e de outros erros do passado.
“Não podemos agora ter receio de ir a tribunal cobrir uma actividade, porque está em causa o fulano, o sicrano ou beltrano”, aclarou.
A jornalista deu a conhecer que aspectos como esses em nada abonam a imagem de Angola, que até está a ser reconstruída lá fora. “Esse tipo de acontecimentos negativos podem contribuir para desgastar a imagem que o país tem vindo a construir e a consolidar”, alertou, para acrescentar que estando agora o país representado no Comité Executivo da FIJ, a presença e a visibilidade sobre o país será maior.

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