Sociedade

Sistema de ensino vai incluir línguas nacionais

Edivaldo Cristóvão

A partir do próximo ano lectivo, o Ministério da Educação vai incluir as línguas nacionais no sistema de ensino, em função das especificidades étnico-linguísticas de cada região, anunciou, ontem, em Luanda, o secretário de Estado para o Ensino Pré-Escolar e Geral, Pacheco Francisco.

Ministério de tutela está a criar as condições para introduzir ensino das línguas nacionais
Fotografia: Maria Augusta | Edições Novembro

O secretário de Estado falava ao Jornal de Angola, à margem de um seminário sobre "A Língua Materna e o seu Impacto Sociocultural", realizado pela UNESCO, em alusão ao Dia Internacional da Língua Materna, assinalado sexta-feira..
Pacheco Francisco disse que o Ministério da Educação leva a cabo um programa de adequação curricular, em que estão ser reestruturados os manuais para os professores começarem a trabalhar com as línguas de origem bantu.
“Estamos a ver a possibilidade de implementar em algumas províncias o pluri-linguísmo, atendendo que por causa da guerra, muitas cidades têm mais de uma etnia, por isso, está a ser feito um levantamento, para identificar que línguas devem ser incluídas no sistema de ensino de cada região”, explicou o governante.
Para Pacheco Francisco, o programa prevê identificar os professores do ensino primário que já falam línguas e depois capacitá-los, tendo referido que neste momento estão incluídos no sistema de ensino, sete línguas nacionais, nomeadamente o kimbumdo, kikongo, tchokwé, kwanhama, nganguela e o nhaneca.
Pacheco Francisco alertou que o problema da fraca expansão das línguas nacionais, deve-se também à situações culturais no seio familiar, porque muitos pais antes proibiam os filhos de falar dialecto local.
O docente da Faculdade de Letras e especialista em línguas africanas, Jorge Capitango defendeu que as línguas nacionais devem estar inseridas desde o ensino primáriro até ao médio, tendo alertado para a necessidade de se criarem manuais, dicionários e gramáticas para facilitar o método de ensino.
O secretário permanente da Comissão Nacional para a UNESCO em Angola, Alexandre Costa, disse que aquele organismo internacional tem encorajado os Estados Membros a prosseguirem com os seus esforços, com intuito de inserirem dentro das suas políticas públicas, a adopção e o resgate das línguas maternas.
“Reconhecermos que o Governo de Angola tem feito esforços para que isso aconteça e achamos que está num bom caminho”, considerou.
Simião Serrote, estudante do Magistério Muto Ya Kevela, disse estar satisfeito com a iniciativa do Governo em inserir o ensino das línguas nacionais no currículo escolar, porque tem aprendido kimbundo.
“Quando aprendemos desde cedo, fica mais fácil capacitar os futuros professores. Mas ainda há muito que fazer para a expansão das línguas nacionais. Penso que deve começar a ser desenvolvida no seio familiar, para que as crianças cresçam já com a cultura de comunicar através de dialectos”, asegurou o jovem.

Língua materna
O encontro promovido hoje, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), serviu para sensibilizar e promover o papel da língua materna e o seu impacto sociocultural, de modo a contribuir para a protecção das línguas faladas em Angola, bem como honrar as tradições culturais e a diversidade linguística.
Dados divulgados recentemente pela Atlas Geolinguístico da UNESCO, referem que em todo o mundo, existem quase sete mil línguas, das quais, 2.500 estão em risco de extinção e aproximadamente 200 desapareceram nas últimas décadas.
A língua materna é adquirida de forma natural, através da interação com o meio envolvente, sem intervenção de um professor, em sala de aulas, e sem a reflexão linguística consciente, também conhecida como a língua nativa.
O Dia Internacional da Língua Materna foi instituído na 30ª sessão da Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência, Cultura, Comunicação e Informação (UNESCO), em 1999.
A data é comemorada todos os anos, pelos Estados Membros e as suas matrizes têm como foco a promoção do pluri-linguísmo, diversidade cultural, bem como contribuir para a divulgação das tradições linguísticas e culturais.

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