Sociedade

“Toda a gente tem de fazer o que puder para estar do lado certo da História”

"Sinto-me honrada por ter chegado à bonita Lisboa e a Portugal. É muito bom sermos recebidos de forma tão calorosa".

Fotografia: DR

Depois de 21 dias a cruzar o Atlântico, Greta Thunberg chegou a terra firme ao início da tarde de terça-feira e aproveitou as primeiras palavras da conferência de imprensa para agradecer a viagem... e a recepção. A activista su-eca chegou a Lisboa a bordo do La Vagabonde. A chegada atrasou devido ao vento e correntes desfavoráveis que não ajudaram a fase final da travessia. Mas, a espera não desmobilizou ninguém, pelo contrário: a "plateia" foi aumentando ao longo da manhã e a jovem de 16 anos foi recebida por mais de uma centena de pessoas, ao som de "welcome Greta" (bem-vinda, Greta) e de "Greta's voice is our voice" (a voz da Greta é a nossa voz).
E Greta fez, novamente ouvir a sua voz. "Toda a gente tem de fazer o que puder para estar do lado certo da História", afirmou, durante uma breve conferência de imprensa, minutos após a chegada. A activista ficou alguns dias em Lisboa, antes de partir para Madrid, onde decorre a 25ª conferência da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (COP25). Foram poucos dias na capital portuguesa, já que hoje decorre, na capital espanhola, uma manifestação internacional por uma maior acção no sentido de travar o aquecimento global, que conta com a presença da jovem activista.
Como tem feito até aqui, Greta Thunberg promete continuar a pressionar os líderes mundiais e fazer-se ouvir na capital espanhola:
"Não vou parar. Vamos à COP, vamos continuar a luta lá para garantir que as vozes das pessoas, dos jovens, sejam ouvidas atrás daquelas paredes. Enfrentamos uma urgência global e precisamos de ter uma abordagem para salvar a humanidade, lutando não só por nós, mas pelos nossos filhos e netos, por todos os seres humanos", reforçou a activista sueca, que deixou um apelo: "Espero que cada um de vocês seja activo e comece a lutar pelo seu futuro".

21 dias de viagem "turbulenta"
Mas Greta não falou só do futuro. Começou, aliás, pelo passado, pelos 21 dias que passou no Atlântico. Antes dela já tinha feito Riley Whitelum, o dono do catamarã, que falou numa "viagem difícil" e "turbulenta" - "não é recomendado atravessar o Atlântico norte nesta altura do ano". Já Greta Thunberg disse "estar muito agradecida por ter tido esta experiência" e "descontraída", depois de uma viagem em que se está "isolado durante três semanas, num espaço tão limitado e com coisas tão limitadas para fazer". É "maravilhoso" chegar a terra, mas a cabeça "ainda não está habituada", disse ainda, revelando que en-joos só no primeiro dia da viagem.
Cansada, mas grata pela experiência a bordo do catamarã, a jovem sublinhou que é "fantástico" estar "de volta à Europa - "Atravessei uma aventura, sabe bem voltar. Eu e todos os outros ambientalistas vamos continuar a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, iremos continuar a viajar, para pressionar as pessoas que têm o poder, para que coloquem as prioridades no devido lugar e dêem prioridade máxima a este assunto".
Já em resposta a uma questão de um jornalista, sobre as críticas que lhe apontam de ser apenas uma miúda zangada, Greta Thunberg referiu "que as pessoas estão a subestimar a força dos miúdos zangados". "Nós estamos zangados, frustrados, mas é por uma boa razão", acrescentou, lembrando que o que está a exigir aos líderes mundiais é que sejam dados passos claros para lutar contra as alterações climáticas: "As pessoas com poder têm de ouvir a ciência. Não nos compete a nós (jovens) apresentar qualquer tipo de plano para garantir o nosso futuro".
Greta Thunberg tem, no entanto, a certeza de que "nenhum país está a fazer o suficiente". "Podemos fazer muito mais do que estamos a fazer neste momento", considerou.

class="bold">Cinco horas à espera de Greta

Manhã cedo, eram algumas dezenas os activistas que esperavam Greta. Com tambores a rufar e palavras de ordem em defesa do am-biente, a assistência foi aumentando ao longo da manhã, concentrada junto a um palco montado na doca de Santo Amaro, onde Greta viria a discursar. E, se a audiência aumentou, o número e o tema dos cartazes também se foi multiplicando. A luta ambiental tem muitas faces e uma delas foi a que trouxe Greta Thunberg a Lisboa por via marítima, o mesmo transporte que usou para ir da Europa aos Estados Unidos - "Low cost now, high cost tomorrow" (baixo custo hoje, alto custo amanhã) foi uma das frases a merecer mais destaque, como cartaz e palavra de ordem, um manifesto contra a pegada ambiental causada pela aviação.
Com a organização a cargo das associações ambientalistas Zero e Climáximo, além da Greve Climática Portugal, as causas que ali se juntaram na terça-feira eram muito diversas. Prova disso eram os muitos slogans que se podiam ler: "A verdadeira COP é na rua", SOS Amazónia, "o choro da Terra é o choro dos pobres" eram algumas das frases que se viam em cartazes mais ou menos artesanais.

Activista viaja à boleia

Greta Thunberg chegou à América num veleiro de competição, o Malizia II, pertencente a um membro da família real do Mónaco, Pierre Casiraghi, filho da princesa Carolina e sobrinho do príncipe reinante, Alberto. Uma viagem feita às expensas de um símbolo do que resta da velha Europa das monarquias.
Não podia ser maior o contraste com quem lhe deu boleia de volta, dos EUA para a Europa. Riley Whitelum e Elayna Carausu são um jovem casal australiano de "youtubers" que há cinco anos que vende na net, em troca de donativos recolhidos online, uma vida de sonho e de paisagens paradisíacas.
Com um filho hoje com três anos, Lenny, criado a bordo, Riley e Elayna, circumnavegam o globo num catamarã à vela, "La Vagabonde", comprado por ele com as poupanças feitas em oito anos de duros trabalhos. Das suas aventuras vão produzindo vídeos para o "You Tube" - já mais de duzentos. A quem gosta desses vídeos e de seguir a odisseia pedem donativos, através de uma plataforma de crowdfunding.
O canal do casal no YouTube já tem quase 1,2 milhões de seguidores - e Riley e Elayna procuram sempre manter viva a interacção. No site incluiu-se, também, um mapa em permanente actualização com a viagem do La Vagabonde. Os doadores têm acesso aos vídeos uma semana antes destes serem disponibilizados online. Serão portanto os doadores os primeiros a ver vídeos com Greta a bordo. Desta vez, Riley e Elayna fizeram-se acompanhar de uma velejadora profissional, Nikki Andersson.
O compromisso é de produção de um vídeo por se-mana - mas há muito mais. Na sua página de Facebook já têm uma loja onde vendem roupa e outros produtos. Tem sido nessa página que dão conta da travessia Atlântica que fizeram com Greta Thunberg a bordo. Não escondendo que os últimos dias foram difíceis (mar revolto, ventos muito fortes).
No site, Riley explica como conseguiu comprar o La Vagabonde: "Não, eu não tinha pais ricos que me compraram um barco para navegar pelo mundo. Durante oito longos anos, trabalhei no mar em plataformas de petróleo e nas minas da Austrália Ocidental, economizando cada dólar possível para poder pagar um iate decente."
Depois, Riley fez-se ao mar sem praticamente ne-nhuma experiência como velejador e na Grécia conheceu Elayna. Já estão percorridas mais de 80 mil milhas náuticas (128 mil km), cobrindo o Mediterrâneo, Atlântico, Caraíbas e o Pacífico. O "La Vagabonde" chegou terça-feira a Lisboa, com Greta Thunberg. A activista é esperada amanhã em Espanha.

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