Sociedade

Trabalhadores da ENP denunciam humilhações

Rodrigues Cambala |

Todos os trabalhadores da Empresa Nacional de Pontes (ENP) querem falar sobre os 47 meses sem salários, sobre a vida miserável, sobre as esposas que abandonaram as casas, sobre a falta de dinheiro para pagar a escola, comida e roupa para os filhos.

Vigília à entrada da Empresa Nacional de Pontes para exigir salários em atraso já dura dois meses
Fotografia: Eduardo Pedro| Edições Novembro

À volta do quintal, os funcionários estão distribuídos em ilhas. Pedro Selende entra no contentor. É lá onde funciona a Comissão Sindical dos trabalhadores. Dois bancos corridos de madeira, quatro cadeiras velhas e uma mesa de escritório com uma pilha de papéis.
Pedro é franzino e tem o rosto eriçado por culpa da idade. Aos 64 anos, o ancião já não se lembra do ano em que entrou na empresa. Silva Francisco, secretário para a área jurídica do Sindicato dos Trabalhadores da ENP, ajuda a contabilizar o tempo de serviço do colega. “São mais 30 anos de serviço.”
O ancião recua no tempo e rebenta: “sim, estou aqui desde o tempo do director Avelino, que morreu de helicóptero.”
Chinelas de borracha, pés ensopados de pó, calças de ganga esmaecida e camisa de mangas curtas, abotoada até à gola. Pedro Selende tartamudeia em voz baixa e amuada: “naquele tempo, meu filho, era muito bom. Tinha cabaz e alegria. Agora, saio e volto sem nada, nada.”
À entrada da ENP, estão fixados cartazes exigindo o pagamento dos salários de quatro anos dos 425 trabalhadores. Nem mesmo as vigílias, realizadas pelos funcionários, deram resultados. A visita do ministro da Construção e Obras Públicas, Manuel de Almeida, realizada há um mês, deixou uma luz verde de esperança. Os trabalhadores confessam que a reunião foi frutífera e ficou a promessa de o ministério adjudicar obras à empresa para ter capacidade de pagar salários.
Tal como os sindicalistas, uma fonte da direcção informou que a Empresa Nacional de Pontes tem dinheiro por receber das pequenas empreitadas feitas um pouco pelo país, mas “está na dívida pública.” A fonte revela que o disponibilizado pelo Ministério das Finanças serviu apenas para saldar mais 60 por cento da dívida do Instituto de Segurança Social, no sentido de iniciar, no próximo ano, o processo de reforma.
O corpo caquético de Pedro tem marcas acentuadas de sofrimento. O joelho dobrado acolhe um chapéu verde para impedir o sol abrasador, sobretudo nos dias que marca o ponto. “Algumas vezes, venho a pé da minha casa, na ponte partida de Viana, para o Cazenga”, explica, entrelaçando as mãos enrugadas.
O ancião trabalha na empresa desde jovem. Foi estivador. Agora é jardineiro. Pedro está agastado com a falta de salário. “Para comer, é graças à minha nora”, diz.
Pedro Selende vê as suas reclamações fortalecidas por Manuel Jerónimo, outro sindicalista, que acrescenta: “no passado, tínhamos direito a uma cesta básica no final do ano.” Como vivem? As respostas parecem concertadas, mas não. “Fazemos empréstimos, biscates para poder comer. Uns já morreram e outros as mulheres foram embora”, atiram em uníssono.
Manuel é delgado. Quando fala solta gotículas de lágrimas. “Se Deus quiser e a empresa pagar, o salário vai servir apenas para pagar a dívida contraída.”
Apesar da falta de salário, os sindicalistas revelam ocorrer despedimentos de trabalhadores por ausência. Gabriel Magalhães, também sindicalista, afirma que o sindicato não percebe como é possível o trabalhador, sem dinheiro para se deslocar com regularidade ao local de trabalho, ser despedido.
Pedro, por exemplo, não sabe até agora as razões que o impedem de estar na reforma. Mas Silva Francisco, 62 anos, esclarece o colega que tal situação se deu devido à falta pagamento da Segurança Social.
O Sindicato dos Trabalhadores é peremptório em confirmar a informação da nossa fonte, segundo a qual nem todos têm atrasos superiores a 47 meses. Quando a empresa tem dinheiro atende os pedidos de ajuda dos trabalhadores.
“Se o trabalhador tiver um problema, espera até que a empresa tenha dinheiro para obter algum valor”, acrescenta Silva Francisco, acrescentando que os salários precisam de ser reajustados.
Manuel Jerónimo, 42 anos, e Gabriel Magalhães, 43 anos, falam em uníssono quando o assunto é “pedir apoio à empresa.”  ”Nem todos os trabalhadores são beneficiados pelo fundo de maneio, porque o dinheiro não chega para atender a todos.”

                                                          "Estamos a passar por uma situação difícil nas nossas casas"

Silva Francisco humedece os lábios com a saliva por culpa do calor. Os corpos começam a encharcar pela reduzida quantidade de oxigênio no contentor do sindicato. Há mais de 30 anos na empresa, Silva diz que sobrevive graças ao apoio dos filhos. “A minha filha mais nova deixou a universidade por falta dinheiro para pagar”, acrescenta Silva, quando viu o seu pensamento amputado por Manuel Jerónimo que começou a relatar a odisseia dos trabalhadores. “Estamos a passar por uma situação difícil. Os homens perderam respeito em casa e só não apanhamos trombose, enfim...Temos pessoas que precisam de uma cirurgia”, conta.
Antes de se queixarem do encerramento do posto médico, os três convidaram a reportagem a visitar todas as áreas de produção da empresa. A oficina funciona abaixo do meio gás. A oficina de mecânica tem alguns camiões e carrinhas parados e envelhecidos. O tecto está a degradar-se, deixando algumas frinchas.
O posto de abastecimento de combustíveis ainda funciona. Os armazéns estão vazios e encerrados. Em direcção ao refeitório, há dois contentores frigoríficos oxidados. Há vários painéis de pontes metálicas amontoados no quintal. Três britadeiras novas estão paradas  no quintal. Mais dez passos e está um refeitório. Já não restou nada, aliás nunca mais serviu refeições. Jejum. É da cozinha. Na área de estação de serviço, sobraram talhas. A serralharia está sem vivalma, mas com uma pilha de ferramentas. Após o portão, vê-se um jango já sem tecto de colmo. Contactado, o director-geral, José Henriques, prometeu falar em breve ao Jornal de Angola.

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