Sociedade

Tradutores e intérpretes sem espaço de emprego

César Esteves

O presidente da Associação dos Tradutores e Intérpretes de Angola (ATI), criada há oito meses, revelou, em Luanda, ser lamentável que instituições públicas e privadas continuem a recorrer ao exterior para traduzir documentos para línguas estrangeiras, quando o país já dispõe de técnicos capazes de executar a tarefa.

 

Caetano Capitão lamenta a situação e espera pela mudança de comportamento
Fotografia: EDIÇÕES NOVEMBRO

Em entrevista ao Jornal de Angola, Caetano Capitão disse que a prática não só marginaliza os tradutores e intérpretes angolanos como também mancha a imagem de Angola lá fora.

“Essas instituições enviam documentos para o Brasil e Portugal, com o fundamento de que, em Angola, não há profissionais capazes”, acentuou Caetano Capitão, que disse ter Angola tradutores e intérpretes competentes.
Ao mandarem documentos para serem traduzidos no exterior do país, sobretudo os de “natureza sensível”, prosseguiu Caetano Capitão, as instituições colocam o país numa situação de vulnerabilidade, porque se “pode correr o risco de assuntos que deviam ser bem protegidos ficarem espalhados na praça pública”. “Além disso, é mais caro mandar traduzir lá fora do que cá”, salientou Caetano Capitão.
O presidente da ATI acrescentou que a postura adoptada por instituições públicas e privadas “tem privado muitos angolanos de oportunidades de emprego que surgem no mercado, situação que os deixa cada vez mais vulneráveis”.
O presidente da ATIA revelou que os tradutores e intérpretes angolanos, alguns formados no exterior e outros localmente, são maioritariamente jovens e à procura constante de trabalho.
No que diz respeito às televisões que ainda não colocaram nos espaços noticiosos a figura do tradutor gestual, conforme determina a Lei das Acessibilidades, o presidente da ATIA disse não entender como as estações televisivas continuam a desrespeitar essa orientação.
O presidente da ATIA frisou que a associação que dirige dispõe de jovens com formação em língua gestual e capazes de desempenhar essas funções. “Eles dizem, o que não concordamos, que não existem técnicos capazes de preencher aquelas vagas”, lamentou Caetano Capitão.
 A Lei das Acessibilidades determina que as cadeias de televisão instaladas no país tenham nos seus espaços noticiosos tradutores de língua gestual, de modo a permitir a compreensão dos cidadãos surdos e mudos.
Das várias estações que operam no país, apenas a TPA cumpre com esse estipulado, mas não na íntegra por não ter a figura em todos os programas, como é o caso do Telejornal, principal serviço noticioso da estação pública.
Caetano Capitão disse que, numa primeira fase, a Associação dos Tradutores e Intérpretes de Angola está instalada apenas em Luanda, mas o objectivo é a sua expansão por todas as províncias. “A instituição é de âmbito nacional”, explicou o responsável.
A associação foi criada para, entre outros fins, unir os tradutores e intérpretes de todo o país num só organismo e mostrar a importância dos mesmos na sociedade. Um dos objectivos, segundo Caetano Capitão, é ajudar o Executivo na execução de programas ligados à tradução.
O presidente da ATIA garantiu que os membros da associação estão capacitados para traduzir línguas estrangeiras como inglês, francês, alemão e mandarim, assim como algumas línguas nacionais e a gestual.
Com a criação da instituição, esclareceu Caetano Capitão, pretende-se contribuir para uma maior democratização e inclusão das pessoas mudas e surdas existentes no país.
A associação pretende ter cooperação com os ministérios da Acção Social, Família e Promoção da Mulher, da Educação, das Relações Exteriores e da Comunicação Social.

Tempo

Multimédia