Sociedade

Um gestor de sucesso

Rui Ramos

Eduardo Graça Cussendala nasceu há 49 anos em Ginje, a 30 quilómetros de Calulu, no coração do Cuanza-Sul. O seu pai, Van-Dúnem Mulalo, era cabo no exército colonial e a sua mãe, Tabina José Graça, era camponesa.

Eduardo Cussendala sempre foi uma pessoa determinada
Fotografia: Dombele Bernardo|Edições Novembro

O Ginje era uma povoação pequena, sem energia nem água corrente, e o jovem Eduardo teve de dar os primeiros passos da aprendizagem na escola que o seu pai construiu na sua própria casa.
Em 1978, já em Luanda, ingressa nas FAPLA e é destacado para o Huambo, onde faz a recruta na Escola Heróis de Cangamba e depois frequenta a escola de oficiais Nicolau Gomes Spencer. Após os Acordos de Bicesse, é desmobilizado,  fica sem emprego, bate  à porta da Textang 2, e entra como segurança, até ingressar na Polícia Nacional.
Eduardo Cussendala decide então mudar a sua vida  e parte para a África do Sul com pouco mais do que a roupa do corpo. Na Cidade do Cabo encontra a profissão de pescador num barco de pesca.
De uma viagem de regresso a casa, de comboio, guarda uma amarga recordação. Com um grupo de angolanos, sofre um ataque xenófobo, é esfaqueado e atirado do comboio em andamento. Tratado e curado, não vira a cara à luta e em 1995 contacta a empresa retalhista Hyperama, que mais tarde passou a integrar a cadeia de supermercados Shoprite, e começa a trabalhar como auxiliar na recolha dos carrinhos de compras.
Mas Eduardo Cussendala não aceita a estagnação, ano e meio mais tarde é promovido a controlador de stocks e em 1998 recebe a responsabilidade  de controlador de frutas e legumes e três anos mais tarde é gerente de treinamento.

Gestor em Luanda
Eduardo Cussendala toma a decisão, em 2003, de seguir outros responsáveis  sul-africanos que vêm a Luanda abrir o primeiro Shoprite, no Palanca, de que foi o primeiro gerente de vendas. Logo no ano seguinte Eduardo Cussendala é promovido a gerente regional de abertura de lojas e em 2005 é director nacional do mercado de frescos de Angola, responsável pela compra e distribuição de produtos agrícolas.Eduardo Cussendala tem um olhar sereno e o seu rosto irradia seriedade e determinação. É  exemplo de um angolano que se construiu a si próprio, sem lamentações, reerguendo-se do chão e subindo uma, duas, três vezes a montanha íngreme da vida.
No Mercado de Frescos de Angola, Eduardo Cussendala dirige 65 trabalhadores.
O seu trabalho consiste em ir ao encontro de camponeses e agricultores para o fornecimento de produtos agrícolas à cadeia de supermercados Shoprite.
A Shoprite tem um centro de distribuição em Benguela e outro em Luanda e trabalha com 120 agricultores a quem compra os produtos e a quem presta assistência técnica, mas esse número pode aumentar, bastando que haja camponeses ou agricultores que se candidatem e os seus produtos sejam aceites.
Eduardo Cussendala é um  gestor de sucesso, à frente da maior distribuidora de produtos agrícolas do país. Os produtos hortícolas nacionais representam hoje 85 por cento da oferta da cadeia de supermercados, que possui 30 lojas em 13 províncias, empregando cinco mil trabalhadores directos.
O gestor fala com entusiasmo quando refere que a Shoprite veio para ficar e até ao fim do ano vai instalar-se também no Zango-Viana, Uíge e Luena, disponibilizando em cada superfície comercial 250 postos de trabalho directos.
Eduardo Cussendala recorda os anos de 2005 em que Angola importava tudo. Esses tempos já passaram, diz com firmeza, hoje as coisas estão diferentes, importamos apenas 20-25 por cento de legumes, produzimos uvas e café e pretendemos exportar tomate e abacaxi, por exemplo, para a Namíbia e África do Sul.
O mercado também está diferente, Eduardo Cussendala não tem dúvidas. Antigamente a dieta alimentar era muito fraca, havia uma luta pela sobrevivência, hoje consegue-se vender 250 caixas de morangos por dia num supermercado e a população procura kiwi, pitaya e maçãs.
Casado com a médica Alexandra Ferrão, que trabalha na Repartição de Saúde de Belas, e pai de duas meninas, Eduarda e Eduína, Eduardo Cussendala reflecte um grande optimismo nas suas análises.
“Venho dos tempos de crise, do jugo colonial e das guerras, hoje estamos em paz, nada nos vem de graça, temos de fazer com que as coisas aconteçam, com lamentos nada se constrói.”

Tempo

Multimédia