Sociedade

Um mar de oportunidades

José Bule

Entra e sai. Abel Comba está na rua. Vira para o lado esquerdo. Olha para a frente. Procura identificar um po-tencial comprador de peixe. Está próximo da viatura estacionada mesmo à entrada do Mercado do Mundial, no bairro dos Pescadores, em Cacuaco.

O mar é uma fonte regular de rendimento para muitas famílias que vivem no litoral
Fotografia: José Bule | Edições Novembro

Aguarda ansioso pela chegada de fregueses. O jovem, de 24 anos, chega ao local às 6 horas e larga às 15 horas. À noite, vai à escola.
Estuda a 10ª classe num colégio privado, na zona da Cerâmica, onde  também vive. Paga três mil kwanzas por mês. Abel Comba anima-se. Molha os lábios com a língua. Solta um sorriso. Duas mulheres aproximam-se do local. As bacias que transportam estão vazias. Bibiana e Joaninha são irmãs. A primeira tem nove filhos e a segunda deu à luz quatro.
Visivelmente satisfeito, Abel Comba corre ao encontro delas. Dá-lhes uma palavrinha e abraça-as com muito carinho. Leva-as ao encontro do pescador Adriano Luís, que, ao lado de outros tantos, comercializa os vertebrados aquáticos a partir das chatas estacionadas na praia.
Abel Comba está munido de uma faca afiada e um escamador preso à cintura. São meios que usa na preparação do peixe. Não hesita quando é chamado a rasgar os vertebrados aquáticos.
“Eu tenho estes meios comigo, porque muitos clientes me pedem para escamar, tirar as tripas do peixe, an-tes de levarem para as suas casas”, explica.

Preço de igreja no mercado

No Mercado do Mundial estão centenas de mulheres e alguns  homens que compram grandes ou pequenas quantidades de peixe. Abeiram-se  das dezenas de chatas imobilizadas na praia.  Algumas vendedoras comercializam ali mesmo o produto e outras transportam para diferentes pontos de venda e para a alimentação das suas famílias.
Bibiana e Joaninha compram o peixe a “preço de igreja”. Enchem as bacias com grandes quantidades de savelha. Na chata de Adriano Luís também há bagres, barbudos, massussos, corvinas, matonas e mabolobolos.
Elas estão radiantes. Fa-zem um grande gesto de agradecimento. Entregam mil kwanzas a Abel Comba, que recebe o dinheiro com as duas mãos. Agradece de forma afável.
“Com o dinheiro que ganhamos sustentamos os nossos filhos e também dá para lhes colocar na escola. Às vezes, ganhamos muito. Mas há dias em que não ganhamos quase nada”, revelam as irmãs. Ambas escalam o peixe a céu aberto. As vísceras, cabeças, barbatanas, guelras, boca, olhos e escamas ficam espalhadas no chão. As moscas festejam e  multiplicam-se aos milhares. A água do mar atinge a areia e arrasta a imundice.
“Não te preocupes, mano. Daqui a pouco, os trabalhadores que recolhem o lixo aqui no município de Ca-cuaco vão passar, para levar tudo isso”, respondem em coro, para tranquilizar o repórter.
No município de Cacuaco, as praias e ruas da vila estão mais limpas. Os trabalhadores da empresa contratada pela Administração local do Estado realizam um trabalho digno de realce, afirmam as peixeiras e banhistas.
“Iuladores” em acção Abel Comba e “iuladores”, nome atribuído aos rapazes que recebem os potenciais clientes à entrada do mercado, para de seguida guiá-los até ao local de venda de peixe, deambulam de um lado para outro à procura de compradores.
Um deles, Alberto Lu-camba, desempenha essa actividade há mais de 10 anos. Começou  aos 13. Todos os dias, a partir das 6h30, marca presença no local. Em média, factura mais de três mil kwanzas por dia. As peixeiras mais antigas do Mercado do Mundial conhecem -no bem. Algumas novatas também. Alberto Lucamba estuda no período da tarde. Por isso, faz o maior esforço para abandonar o local de trabalho às 11 horas. “Os meus pais são camponeses. Com o trabalho que realizo, ganho o suficiente para ajudá-los a resolver várias situações. Estudo a 10ª classe, no período da tarde, na escola 101 da Funda. Estou a frequentar o curso de Ciências Humanas”, anuncia.

Passar a noite no mar

Muitos pescadores passam a noite no mar. Januário corre em direcção à embarcação que acaba de chegar. Enviou, na noite do dia anterior, quatro homens ao mar, que regressam agora, às 8 horas, com a chata carregada de savelhas e matoninhas.  Depois de passar a noite no mar, Domingos Morais está cansado. Trouxe muito peixe. As vendas correm bem. Está na hora de arrumar o material de pesca.
Levanta a rede e observa se o equipamento está intacto.
Não quer ser fotografado. Cobre a cabeça com o capuz. Mas, apesar disso, manifesta grande disponibilidade para falar. O pescador de 38 anos conta que era caçador. Lembra que um dia ficou sem a caçadeira e, por isso, teve de aprender a fabricar armadilhas para prosseguir  a actividade.
“Alguém ‘agitou’ o dono da arma que estava comigo. Ele deixou de confiar em mim. Acreditou mesmo que eu lhe roubava. Para ele, a quantidade de animais que caçava era pouca.
Queria que eu lhe apresentasse muito mais”, recor-da o pescador, melancólico. Trabalha no mar há três anos. Um amigo convidou-o. Domingos Morais é sortudo. Em pouco tempo tornou-se especialista em apanhar lambulas e savelhas.
Todos os dias leva peixe para casa. Vive com a mu-lher e seis filhos no bairro da Pedreira, zona do Belo Monte, em Cacuaco.  Mas a maior parte é comercializado no Mundial.
Outro pescador, Adriano Luís, tem 23 anos e exerce a profissão há cinco. Não trabalha aos domingos. Vai ao mar de segunda a sábado. Traz savelha, bagres, barbudos, massussos, corvinas, matonas e mabolobolos.
O jovem concluiu a 12ª classe na Escola do II Ciclo do Ensino Secundário de Kifangondo, na especialidade de Ciências Económicas e Jurídicas. Parou de estudar para garantir o sustento da mulher e do filho.
A chata que usa na pesca não é dele. O pagamento, pelo aluguer do meio, é feito de acordo com as vendas que são realizadas diariamente. O dono cobra o di-nheiro da chata, do motor, da rede de pesca e do combustível. “Felizmente, as vendas correm muito bem. Tenho o contacto de muitos clientes. Vou ao mar às 17 horas e só volto às quatro do dia seguinte. Mas também há dias em que vou pescar às 5 horas para voltar às 10 horas”, esclarece.

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