Sociedade

Vendedoras acusam fiscais de agressão

Yara Simão |

Vendedoras do mercado da BCA acusam fiscais afectos à Administração Municipal do Cazenga de agressão física e roubo, depois de terem arrombado uma moradia, de onde levaram mercadorias.

Vendedoras quando mostravam as fichas adquiridas para serem transferidas para o campo da FILDA
Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

Segundo elas, o acto aconteceu na sexta-feira pelas 11 horas, pelo que aguardam por uma resposta da Polícia Nacional, uma vez terem formalizado já uma queixa.
A proprietária da casa, Julieta Tchifukuma, explicou ao Jornal de Angola que, com a retirada da venda na rua, não lhes restou outra alternativa a não ser vender no quintal.
“Eu estava a vender dentro do meu quintal, porque um chefe autorizou-nos, mas, infelizmente, chegaram outros que arrombaram o portão e agrediram os meus filhos e a mim, enquanto outros levavam mercadoria para uma carrinha que encostaram junto à porta”, explicou Julieta Tchifukuma.
A senhora confirmou que apresentou a queixa à 10ª Esquadra e está à espera de uma solução com vista a reaver as mercadorias levadas por fiscais da Administração Municipal do Cazenga.
“Nós queremos os nossos pertences”, disse Julieta Tchifukuma, adiantando que, embora reconheça que as vendedoras trabalhavam de forma ilegal na via pública, mesmo assim “não há motivos para violência.”
“Se insistimos em vender desta maneira, é porque não temos um outro sítio”, acentuou a vendedora, com o argumento de que “os mercados estão cheios e a cada dia mais mulheres desempregadas entram para o mercado informal para sustentar as suas famílias.”
Carolina António, outra vendedora que também viu a sua mercadoria a ser levada por agentes do Serviço de Fiscalização do Cazenga, não tirou nem uma vírgula ao que disse a colega. “Os fiscais arrombaram a porta e levaram produtos como arroz, açúcar, feijão, massa, detergente e frescos que estavam numa arca”, disse, condoída. Carolina António lembrou às autoridades que são chefes de famílias, que sustentam através da venda informal. “Não temos lugar para guardar a mercadoria”, salientou a senhora, que se interrogou “vamos fazer como então?”
Esta é a pergunta que a todo o instante sai da boca de várias mulheres que choram por uma solução urgente. As vendedoras foram contactadas pela Administração Municipal do Cazenga e chegou-se a consenso de que seriam transferidas para o campo da Filda, desde que estivessem organizadas e preenchessem, cada uma delas, uma ficha para terem acesso a espaços no novo mercado. Cada vendedora que aplaudiu a iniciativa da administração local desembolsou 150 kwanzas.
“Trinta dias depois do pagamento, deram-nos a notícia de que não havia mais mercado”, lamentou Julieta Tchifukuma, que disse não haver concordância entre a fiscalização e a administração. “A culpa é do senhor administrador, que não está saber resolver a situação, por isso, cada um vem diz que é chefe e faz o que quer”, sublinhou a senhora, que disse estarem as vendedoras à espera que a Administração Municipal do Cazenga encontre um lugar para venderem.
As vendedoras desejam que haja uma intervenção directa do governador da província de Luanda, por falta de consenso com a Administração Municipal do Cazenga. Um encontro com o governador ou com a vice-governadora pode ser a melhor solução, assim entendem as aflitas senhoras que, de acordo com Julieta Tchifukuma, estão  conscientes de que na rua não se vende, uma solução que encontraram por não haver espaços suficientes nos mercados existentes na província de Luanda.
Enquanto aguardam por uma solução, vendem de forma clandestina, continuando na rua, de onde atraem clientes para as chamadas casas de processo, onde ficam as mercadorias à espera de clientes.
No período nocturno, saem à rua com produtos para vender. As vendedoras manifestam o seu descontentamento pelo facto de estarem a ser tratadas sem respeito por agentes do Serviço de Fiscalização e da Polícia, quando o mais curial seria que houvesse já um lugar onde pudessem dar continuidade com mais segurança à sua actividade comercial informal.

Administrador desmente

Tany Narciso, administrador do município do Cazenga, desmente a acusação de agressão feita por vendedoras, garantindo que não há necessidade de utilização de violência. O administrador disse acreditar que a acusação de agressão é “um truque arquitectado por elas para chamarem a atenção da sociedade.”
Tany Narciso assegurou não ter conhecimento de cobrança de valores para a cedência de espaços.
“A ordem de pagamento de 150 kwanzas não veio da administração”, garantiu o administrador municipal do Cazenga, que disse não ser também do seu conhecimento a transferência de vendedoras para o mercado da Guarita. “Elas foram lá porque quiseram, ninguém as obrigou. A administração nada tem a ver com isso”, frisou Tany Narciso, para quem “esta luta de as retirar da via pública já vem de há muitos anos.”
“Estas mulheres estão conscientes de que não podem vender numa via pública. É ilegal”, declarou o administrador municipal do Cazenga, que confirmou terem sido avisadas com antecedência para se organizarem com vista à transferência para os mais de 10 mercados existentes no Cazenga. O responsável confirmou que vão ser criadas condições para serem transferidas para outros mercados, devendo a prioridade ser para as vendedoras que residem no município do Cazenga, um dos mais populosos da província de Luanda.
“A Administração Municipal do Cazenga tentou negociar com o proprietário de um quintal, onde foram demarcados lugares de venda e colocadas bancadas”, disse Tany Narciso, adiantando que “de nada adiantou porque, entre as próprias vendedoras, não há união e passou a haver guerra de lugares, que foram organizados de acordo com o tipo de mercadoria.”
Um outro empecilho mencionado pelo administrador tem a ver com o facto de as vendedoras se terem recusado a ir para os mercados da Nova Luz, Asa Branca, Sucupira, Cajueiro e outros, onde foram criadas condições de recepção de novas vendedoras.
Um dado é adquirido: na rua, elas também não vão vender, declarou Tany Narciso, que disse ser uma decisão que visa organizar a cidade. O responsável confirmou que existe um projecto de reabilitação da via onde as senhoras vendiam para fazer com que peões e automobilistas circulem sem o perigo de atropelar vendedoras. “Nós não vamos dar guarida à venda ilegal no município do Cazenga”, declarou o  administrador, que revelou ser intenção acabar com a venda em lugares impróprios, daí que a administração vai continuar a trabalhar noutras comunas do município do Cazenga.

  Comerciantes encontram segurança no mercado da Guarita

Enquanto algumas insistem no braço de ferro com a administração, outras uniram-se e foram vender na praça da Guarita, localizada entre os municípios do Kilamba Kiaxi e de Viana. A ideia partiu de vendedoras que decidiram negociar com o proprietário de um terreno, que respondeu positivamente aos gritos de socorro de várias mulheres.
Apesar de a via principal que dá acesso ao mercado improvisado estar intransitável, as vendedoras garantiram que vão vender naquele local, onde mora o perigo de doenças como paludismo, cólera e outras devido ao amontoado de lixo deitado por moradores e à presença de águas paradas. Parte do espaço que ocuparam é uma vala. Isabel Sebastião, vendedora que decidiu ir à Guarita, reconheceu que estavam a comercializar de forma ilegal, por isso não bateram de frente com a decisão da administração. “Nós estamos conscientes de que um dia deixaríamos de vender na rua, por isso tomámos a decisão de deixar de vender na via pública e fazer o que é certo”, disse a vendedora Isabel Sebastião.
Já Joana Makumbe afirmou que as vendedoras querem colaborar com a administração.  “Não queremos confusão, por isso abraçamos a decisão da administração, apesar de muitas não concordarem”, acentuou a senhora, que confirmou estar a ser criada uma comissão de coordenação para, junto do proprietário do espaço, se chegar a um consenso no que diz respeito ao valor a pagar.
As próprias vendedoras estão a fazer uma colecta de dinheiro para a realização de trabalhos de tapa-buraco na via que dá acesso ao mercado, já apelidado de BCA da Guarita. As vendedoras que partiram para o mercado da Guarita demonstraram satisfação por terem encontrado um espaço e esperam que os clientes que tinham no mercado da BCA façam do novo local uma  área preferencial para compras de bens alimentares de que necessitam regularmente.
O mercado da BCA, onde  eram vendidos produtos de uso exclusivo para as Forças Armadas Angolanas, foi encerrado porque criava transtornos à circulação rodoviária e de peões. Agora no local é visível a presença de homens e máquinas a trabalharem para repor a via com condições de transitabilidade para viaturas e peões.

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