Sociedade

Vias rodoviárias do país são precipícios para os condutores

Augusto Cuteta

Há segundos que o automobilista luta para encontrar o melhor sítio para colocar os pneus do Hyundai Tucson. Tem uma fila enorme de veículos atrás do seu, mas a quantidade de buracos, alguns com alguma profundidade, num troço da estrada que liga a zona do Avô Kumbi ao antigo controlo do Golfe, fazem-no parar e pensar se avança ou recua.

A má qualidade dos materiais usados na construção das estradas do país tem contribuído para a rápida degradação
Fotografia: Santos Pedro | Edições Novembro

Os segundos correm rápido. A fila de automóveis continua a crescer. Impacientes, os motoristas de carros mais próximos do condutor indeciso começam a soltar as buzinas. É uma barulhada enorme, que incomoda os transeuntes. Apesar disso, o homem do Tucson continua no gira o volante de um e de outro lado, mas sem avançar um centímetro sequer.
Fruto disso, vimos alguns carros de lá ao fundo a saírem da fila e a tomarem conta do sentido contrário. O tráfego complica-se ainda mais. Os nervos sobem à flor da pele. Ninguém se entende. Agora nem para frente nem para atrás os carros encontram espaço de manobra. Fica tudo parado.
O buraco, com alguma dimensão considerável para ser enfrentada por viaturas ligeiras, existe naquele troço há algum tempo, difi cultando a vida dos motoristas. O cenário é ainda mais emaranhado quando taxistas decidem fazer paragens nos espaços que permitem alguma manobra na fuga aos buracos.
Mais para trás, na Machado Saldanha, alguns buracos tinham sido tapados, aquando da visita do Presidente da República, João Lourenço, a algumas artérias de Luanda, tendo passado pelo Kilamba Kiaxi. Porém, por se tratar de trabalhos paliativos, as chuvas voltaram a destapar as aberturas e a situação, junto à administração do bairro Havemos de Voltar, retoma à condição inicial.
Voltando à via que liga o Avô Kumbi à Avenida Pedro de Castro Van-Dúnem "Loy", o cenário é desolador, como afirmam automobilistas contactados pela nossa reportagem. Buracos, trânsito obstruído e, quando chove, a rua fica totalmente alagada e lamacenta, impedindo que se divise bem os melhores sítios para colocar os pneus. “Se a terra seca, nasce aqui uma nuvem de poeira”, lamenta o munícipe Nelson Gaspar.
Nesse troço, além dos constrangimentos acima citados, há uma vala que atravessa a via, aliás, uma ponte, que leva as águas ao rio Cambamba. Bem ao pé da berma, vê-se um amontoado de lixo no chão, o que impede o trajecto normal das águas, porque os resíduos sólidos entopem o canal de saída das mesmas.
Vêem-se muitos miúdos ali da zona a deitarem o lixo onde podem, depois de fazerem um exercício enorme para fazer a travessia da estrada e dominar os automobilistas impacientes, que se negam a dar prioridade aos peões. Nesse dia, no espaço de depósito não tem contentor algum.
Transposta à referida via, a avenida Pedro de Castro é um mimo. Em toda a sua extensão, tirando os acúmulos de areia, que dá em muita poeira, e engarrafamento, causado, na maioria das vezes, pela forma desordenada de como os taxistas estacionam e param para levar ou deixar passageiros, não há buracos ou outro empecilho relevante. Apenas uns restos de cimento armado deixados no asfalto na área de contorno, que vai dar à escola Pedalé, incomodam.
Na Ngola Kiluanje, a situação é um caos. São horas que se levam para ligar o São Paulo ao Mercado do Kicolo. Os entraves começam na zona do "Arreiou" e só minimizam depois da Cuca. Daqui em diante a confusão volta e é ainda maior. Turismos em serviço de táxi são a causa de quase tudo isso. Param como e onde quiserem. Os agentes reguladores de trânsito parecem incapazes de manter a ordem.
Na famosa paragem do Imbondeiro, a confusão é como se fosse o cartão de visita da zona. Travessia desordenada de peões, manobras desastrosas, paragens e estacionamentos fora das normas que regem o trânsito rodoviário, enfim. Uma pracinha bem ao pé do percurso agrava, igualmente, a situação.
Depois disso, há uma cratera enorme do lado oposto ao Cemitério 14. Há meses que essa vala existe e mudou o sentido do trânsito, inclusive. Centímetros a seguir há um amontoado de terra sólida e à noite diz-se ser muito perigoso, ainda mais com a escuridão que toma conta da via.
Fugindo a Deolinda Rodrigues, onde circular nos últimos tempos está difícil de mais, por causa do estreitamento da via junto às ruas E, F e G do Palanca, tomámos o troço que passa pelo Hospital Sanatório e a Igreja Kimbanguista. Logo à entrada havia buracos, no lado oposto ao Hipermercado Shoprite, passe a publicidade. Desde ontem, as crateras foram eliminadas.
Entre Camama e a Via Expressa, a actual Avenida Fidel Castro Ruz, as coisas estão razoáveis, embora as obras ainda não tenham terminado. Mas, do anel viário do cemitério para o Calemba e daí para Luanda Sul, os motoristas falam que circular por ali é um martírio. “O troço está lastimável. Aqui, há mais buracos que asfalto”, refere a condutora Ana Margarida, moradora da zona.
Durante a nossa reportagem, pôde-se constatar que boa parte dessas vias foram intervencionadas há poucos anos, mas estão no estado em que estão. Para entender as razões desses problemas, o Jornal de Angola ouviu a experiência do engenheiro António Venâncio, para quem a falta de fiscalização profissionalizada está na origem da má qualidade das obras.

Deficiências na construção

O engenheiro considera que as estradas são apenas as edificações que mais nitidamente mostram as deficiências de construção e as falhas do seu acompanhamento, sendo que, de um modo geral, a maior parte das obras públicas não foi seguida por fiscais habilitados, capazes de realizar um trabalho de toda a empreitada nos marcos da lei e dos regulamentos angolanos.
António Venâncio salienta que algumas obras continuam com os seus vícios ocultos adquiridos ou se mantêm com os defeitos aparentes por corrigir. “Muitos destes erros ou vícios não são atacados por inoperância das empresas de fiscalização contratadas sem critérios ou por inacção dos donos de obra, agravada pela falta da cultura de manutenção”.
Em relação às principais falhas na construção de estradas, o especialista afirma que uma delas está ligada à contratação, fundamentalmente, que considerou péssima, opaca e, em muitas ocasiões, perdulárias, por força dos interesses financeiros dominantes, sempre em prejuízo da classe dos empresários e técnicos nacionais.
O engenheiro realçou que a qualidade de uma obra começa pela solidez do projecto e depois com a eficácia da fiscalização. “O que se busca com a inspecção é a defesa do interesse público, representado na empreitada e não apenas no negócio rentável do serviço”.
António Venâncio criticou a forma como são entregues esses projectos a certas entidades para as fiscalizarem. “O que falta são empresas competentes, dirigidas por nacionais e que dominem as exigências da lei sobre a matéria e que sejam escolhidas por mérito profissional dos seus quadros em concurso, uma vez que a maior parte dessas instituições ganhou milhões com a fiscalização em Angola, mas não sabia o que é fiscalizar uma empreitada de obra pública”.
O consultor acusa ainda que essas empresas desconheciam as regras de fiscalização e deturparam tudo. Por isso, defende que esse trabalho no território nacional devia ser conduzida por técnicos nacionais, por via de nomeação do dono da obra, tal como se prevê na Lei dos Contratos Públicos, na condição de “director de fiscalização” e apurados por concursos sérios.
Apesar de essas empresas de fiscalização terem rendido mais de dois mil mi-lhões de dólares, nos últimos anos, não foram obtidos no sector resultados palpáveis. Daí se detectarem problemas nas estradas ligados às más compactações, ao mau dimensionamento dos ór-gãos de drenagem e à inexistência de estudos aturados dos solos.
O engenheiro refere ainda que outros problemas estão relacionados com a insistência na preservação dos traçados rodoviários herdados do passado colonial, que estão ultrapassados pela nova tecnologia e características técnicas dos veículos que sobre elas circulam, assim como a não revisão dos projectos e dos cadernos de encargos.
É o que se verifica, por exemplo, nas estradas 21 de Janeiro, na circular Cabolombo-Cacuaco, na via Ngola Kiluange e em todas aquelas cujas cotas foram decididas sem levar em conta a forma como os bairros de Luanda.
A construção dessas estradas desrespeitou as cotas topográficas, os marcos geodésicos, a topografia e o figurino hidrológico da província. “Deste jeito, não é possível construir estradas duradoiras e evitar inundações”.

  As estradas de Luanda devem ser redesenhadas

O engenheiro António Venâncio alertou que existem estradas que são mortíferas pela sua configuração geométrica de perfil e longitudinal, realçando que há elementos de betão armado que penetram na via, causando desconforto e, até, perigo iminente aos automobilistas.
Em função disso, o consultor de obras públicas reprovou-as e sugeriu que as mesmas sejam redesenhadas. Avança que, começando pelo desenho dos retornos, a altura de certos lancis, entre outros aspectos, são alguns dos exemplos dos que já mataram pessoas pelo desenho errado da sua concepção e construção.
Por outro lado, defendeu que a construção de uma estrada em Luanda implica levar em conta a visibilidade nocturna, que é muito condicionada. “Como os projectos são, por vezes, elaborados no estrangeiro, os seus autores desconhecem a realidade e desenham retornos que à noite são mortíferos e cometem erros crassos”, desabafa.
Na Via Expressa, por exemplo, alerta, construiu-se algumas valetas profundas pegadas às vias, não dando margem de fuga para descuidos fortuitos. “É como se estivéssemos a conduzir junto a um precipício onde não se pode falhar centímetros”.
Das piores estradas urbanas, que pedem redimensionamento, são as da Samba e a “Deolinda Rodrigues”. Existem outras que são ruas de grande valor estratégico para a mobilidade rodoviária, mas que não têm sido atendidas como tal e se apresentam permanentemente sem o pavimento operacional e com buracos quase que vitalícios.

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