Sociedade

Viveiro de combatentes pela Independência

César André

A antiga freguesia do Cazenga, que também já foi apelidada “Congo Pequeno”, deu um valioso contributo para que Angola alcançasse a Independência a 11 de Novembro de 1975. Lá ocorreram movimentações importantes e decisivas de nacionalistas no âmbito da luta anti-colonial. Mas para compreender o Cazenga é preciso recuar para muito mais distante no tempo, para o século XVIII, altura em que a região onde se situa o actual município era uma zona distante dos aglomerados habitacionais da cidade, sendo povoada por animais selvagens, que deambulavam por matagais e riachos. A mancha habitada da capital resumia-se, praticamente, à Cidade Alta, Coqueiros e Kinaxixi. Quase “tudo o resto” eram lavras e matas.

O famoso tanque do cazenga
Fotografia: Alberto Pedro | Edições Novembro

Segundo fontes orais, foi nos finais do século XVIII que chegou a Luanda um indivíduo proveniente da agora República do Congo, de nome Miguel Pedro Cazenga, que terá ocupado uma enorme extensão de terra, que ia desde a ex-Praça do Kinaxixi até ao actual município de Viana. Consta que um dos seus descendentes, Pedro Guilherme Cazenga, faleceu na região do actual município aos 9 de Janeiro de 1946 e, em sua homenagem, foi definida essa data como o dia comemorativo da circunscrição.
O Cazenga durante longos anos teve uma taxa de ocupação bastante baixa, por ser considerado distante e isolado, quando comparado com outros musseques. A partir do final da década de 1960, a circunscrição começou a receber portugueses e foi transformada em freguesia. Por razões políticas, os poderes coloniais adoptaram medidas para dar à zona periférica da cidade um maior equilíbrio étnico, promovendo o surgimento de assentamentos com populações de origem europeia. Foi o caso do Cazenga, que ganhou outra configuração em termos urbanísticos, com novas edificações residenciais. O que hoje é a comuna do Hoji-ya-Henda eram bairros (São João, Adriano Moreira, São Pedro, Santo António, São Jorge, Vilela, Mabor) habitados, maioritariamente, pela população europeia.
Depois da independência, com a guerra civil, um número importante de refugiados internos instalou-se na zona, aumentando a população de forma impressionante.
Mateus Júlio, um dos moradores mais antigos, diz que o Cazenga, nos anos 1960, era uma espéciede “cidade não habitada”, com uma população muito reduzida. Conta o ancião que o povoamento começou a ser incrementado com a implantação de unidades fabris. “Como os trabalhadores tinham de cumprir o horário estabelecido para as jornadas laborais, muitos entenderam por bem vir morar próximo das empresas”.
Mateus Júlio acrescenta que o bairro foi crescendo, numa primeira fase, na zona por detrás da fábrica Cuca, conhecida primeiro por Curica e posteriormente Adriano Moreira.
“Depois da construção da Cuca, em 1962, muitas famílias instalaram-se também na parte da frente da fábrica, próximo da linha férrea, na zona conhecida como 'Área das Cadeiras de Fita', onde se localizava a horta do capitão Palha”, conta Mateus Júlio.Conhecido também por “Man’Tejinho”, Mateus Júlio recorda que na época o Cazenga, que já era o segundo parque industrial de Angola, depois de Viana, tinha cerca de 70 unidades fabris em pleno funcionamento.
“A fábrica de cigarros FTU dinamizou o surgimento de bairros como a Madeira, conhecido por 'Prega a Noite', o Kussunguka e as zonas 17, 18, e 19. As fábricas Siga, Mabor General, IFA, Encoi, Manutécnica, Pitangola, Colchões de Angola, Decorang, Condel, Vilar, Sometal e Robert Hudson e os aviários da Sonefe trouxeram, igualmente, o desenvolvimento ao Cazenga”, acrescenta.
Num determinado momento, populações que viviam nos bairros Cemitério Novo, Sambizanga, Rangel, e não só, foram atraídos ao Cazenga por causa do emprego.
Comerciantes
O Cazenga contava com comerciantes de fama, dentre os quais os senhores António Carneiro, Araújo, Lopes, Waldemar, Ramos, Areias e o Madureira, mais conhecido por Sete e Meio.
Segundo Man’Tejinho, os produtos comercializados na loja do Sete e Meio sofriam sempre descontos, razão pela qual os moradores não os dispensavam.
“A cerveja Cuca era oito escudos, mas ele vendia a sete e quinhentos. A diferença era de cinco tostões, que ontem era muito. Porque ele fazia desconto de cinco tostões em cada cerveja, que era vendida a sete escudos e meio, Madureira passou a ser chamado Sete e Meio”, informa Man’Tejinho.
O comerciante Sete e Meio era bem vindo no seio da população, razão pela qual até hoje o seu nome é um marco no Cazenga.
As casas do bairro Adriano Moreira, modernas e destinadas aos colonos, foram erguidas pela Cooperativa Alegria pelo Trabalho. As moradias serviram de modelo para outros bairros construídos pela mesma cooperativa em Moçâmedes, Huambo, Benguela e Lubango. Reside até hoje no Adriano Moreira o mais velho Kiosa, uma grande referência, muito acarinhado por todos e um verdadeiro “espelho” para a juventude.

Recreação
À semelhança do que acontecia noutros bairros, a recreação no Cazenga tinha como eixos centrais a dança e o desporto. Havia no bairro vários salões de festa, com destaque para o Inter do Cazenga, Matuta e o Centro Social do Cazenga.
Afonso Carlos da Fonseca, antigo morador, diz que a circunscrição contava ainda com os salões Os Azarados, Rosa Maria, Cacuso, Yamaha (este do músico Urbano de Castro), Sandoca, Kufi, Ferranos do Bembe, Muxima Tula, Mulaza, Mil Metros, Malanginhos, Bessa Monteiro, Milevas e Alberto e Lilas. Além dos grandes Urbano de Castro e David Zé, despontaram no bairro músicos como Príncipe Nelas, António dos Santos, Alfredo Wilson, Zé Ngondiondo, Mário Ribas, e tantos outros.
Existiam também grandes farristas, que se destacavam nos bailes de quintal, e não só. Figuras como Kota Russo, Chandula, João Changano, Malola, Cariz Duro, e outros, protagonizaram grandes momentos de dança, informa Carlos da Fonseca, também conhecido por Lanfonsito.
O Cazenga tinha, igualmente, renomados craques da bola, que jogavam em clubes como o Inter do Cazenga, Calumbunze e Juba, só para citar estes. Outros craques eram o Man’Cessa, um canhoto de referência, o Manuel Domingos, o tio Kimbiji, o embaixador Jota, o kota Conceição, o Jubarito, o Avôzinho e o Camilo.
Outras figuras de destaque, fosse pela sua participação cívica modelar, fosse por serem grandes profissionais ou por outro motivo qualquer, eram, por exemplo, o tio Estevão, o João Fefinha, o velho Matadi, o Manico Paulo, o Chiminto e a tia Manica Bringonda.

Zona industrial inactiva
O declínio da zona industrial do Cazenga começou a ter lugar poucos anos depois da independência. Com o tempo, essencialmente por falta de mão de obra qualificada e de matéria prima, e por problemas de manutenção da maquinaria e de gestão industrial, a rede industrial do Cazenga converteu-se, gradualmente, numa espécie de cemitério industrial.
O advento da economia de mercado, no início da década de 1990, foi marcado por um processo de alienação das unidades económicas do Estado em favor dos privados e as antigas fábricas passaram a ser meros armazéns de venda a grosso e a retalho. Umas poucas continuaram a funcionar até finais da década de 1990 e outras, em muitíssimo menor número, até ao início da década de 2000.
Actualmente, fruto de meritórios processos de requalificação, levados a cabo por empresários tenazes, funcionam muito poucas unidades fabris. Um exemplo é a Condel (fábrica de condutores eléctricos).
A desactivação das unidades fabris da zona industrial do Município do Cazenga significou a elevação astronómica do índice de desemprego. Muitos desempregados acabaram por recorrer ao comércio precário em mercados como Asa Branca, engrossando a já grande franja de munícipes que se dedicam ao comércio informal.

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