Sociedade

Zaire: Incêndios florestais colocam em risco o ecossistema

Jaquelino Figueiredo | Mbanza Kongo

Não é necessário muito esforço ou percorrer longas distâncias para se deparar com nuvens de fumaça e focos de incêndio nas florestas do Zaire.

Focos de incêndios, vasta extensão de espécies florestais transformadas em cinzas e outras em risco de seguir o mesmo caminho
Fotografia: Garcia Mayatoko | Edições Novembro | Mbanza Kongo

Acção premeditada ou não, a vaga de incêndios que assola a província tem deixado um rasto de destruição a fauna e flora e graves consequências para o bem-estar do homem e o equilíbrio do ecossistema. O fenómeno que se repete a cada época de Cacimbo preocupa os habitantes do Zaire, inclusive, leigos em conservação do meio ambiente.

Quase ninguém fica indiferente e quem viaja pela Estrada Nacional 120, por exemplo, não esconde a indignação com a dimensão das queimadas e a letargia das autoridades, supostamente por carência de meios humanos e materiais. 

O Jornal de Angola percorreu mais de 250 quilómetros província adentro, constatou a intensidade das labaredas e ouviu relatos de fuga desenfreada de cobras, veados, macacos e outras espécies animais.

De Mbanza Kongo ao Tomboco, passando pelos municípios do Nzeto, Kuimba e Nóqui, o cenário não difere, sendo o dedo acusador apontando aos caçadores furtivos, lavradores e habitantes das áreas adjacentes.

Ana Rita, que este jornal encontrou no percurso Soyo-Mbanza Kongo, não escondeu o espanto diante do que os seus olhos viam. “Estou muito assustada pelo nível de queimadas que deixam desfeitas as florestas e o espaço onde os animais habitam”, disse. A outra consequência, segundo Ana Rita, poderá vir a manifestar-se no empobrecimento da qualidade do ar que se respira, porque esta fumaça desenvolve uma acção negativa sobre a camada do ozono.
Nsambo Emanuel, de 52 anos, reside na aldeia de Papela.

O camponês denuncia que o fenómeno acontece todos os anos na época de Cacimbo, sobretudo sempre que alguns caçadores e lavradores decidem fazer queimadas. “As pessoas que não gostam de trabalhar são as que queimam as matas, mas isso não se faz. O fogo destrói as nossas culturas e mata os animais”, disse Nsambo Emanuel, salientando que a acção acontece na calada da noite.

O espírito de denúncia é partilhado por Maria Juliana. Residente na localidade de Lumbi, município do Tomboco, lamentou a destruição do laranjal, mandioqueiras, tangerineiras, mangueiras, cajueiros, entre outras culturas. “As pessoas que ateiam fogo aqui são conhecidas e os sobas quase nada fazem. Já tive prejuízos numa das lavras de mandioca, tentamos retirar a produção, mas não conseguimos.

Peço às autoridades que reúnam com os sobas para ditar medidas punitivas de modo que se possa evitar tais práticas”, sugeriu Maria Juliana. No caso de Teresa Nsilu Mia Nzambi, 50 anos, a preocupação vai mais longe. Residente na aldeia Nkiende, que dista cerca de 40 quilómetros da cidade de Mbanza Kongo, teme as consequências das queimadas próximo das residências.

“A juventude rural faz queimadas à procura de ratos. É um perigo para nós que vivemos nas redondezas e a sorte é que não há mais casas feitas de capim. Neste momento, estou a apagar estes troncos para evitar a sua progressão”, disse.

Registo de redução

Apesar dos visíveis focos de incêndio que devastam as florestas no Zaire, o director do Gabinete Provincial do Ambiente, Gestão de Resíduos Sólidos e Serviços Comunitários declarou ter havido uma redução no registo de queimadas nos últimos anos. Ketuzaioko Pinda afirmou que o trabalho de sensibilização levado a cabo nas aldeias tem contribuído para redução gradual dos fogos florestais e sublinhou a necessidade de evitar colocar em risco o meio ambiente.

“Temos trabalhado com as administrações municipais e comunais na sensibilização da população. As queimadas trazem consequências graves ao meio ambiente, deterioram os solos, mata os animais selvagens e provavelmente colocam em perigo a vida das pessoas que residem nas áreas próximas”, disse. 

Ketuzaioko Pinda reconheceu a existência de pequenos focos de incêndios em diversos pontos da província e insistiu que não há comparação com os anos anteriores, na sequência do trabalho de sensibilização levado a cabo pelo gabinete que dirige. “Uma ou outra queimada aqui e ali vão surgindo, mas, este gabinete, com as administrações municipais, autoridades tradicionais, sociedade civil e as associações de defesa do ambiente tem feito um grande trabalho de sensibilização junto da população para que parem de uma vez por todas”, reforçou.

Causas injustificáveis

O chefe de Departamento Provincial do Instituto de Desenvolvimento Florestal no Zaire, João Domingos, afirmou que se está diante de uma autêntica devastação da flora e da fauna selvagem, cujas causas não se justificam e lamentou o sucedido. “O que ocorre é praticamente a destruição da flora e da fauna selvagem, onde convergem os animais e as plantas para o equilíbrio do ecossistema.

Por exemplo, uma queimada que encontra o enxame de abelhas vai dizimá-lo, logo cria consequências na produção do mel”, explicou. João Domingos fez saber que as queimadas coincidem quase sempre com a procura exponencial de espécies pré-definidas de animais e insectos e deplorou o risco destas espécies perderem a sua capacidade de regeneração e a natureza alimentar.

João Domingos, referiu, por outro lado, que as queimadas têm feito com que as sementes de algumas espécies vegetais percam o poder germinativo, cortando a sua continuidade na região.

Insuficiente fiscalização

Um total de nove fiscais, dos quais seis trabalham em regime de contrato, controlam aproximadamente 40 mil quilómetros quadrados nos seis municípios da província do Zaire.  “Contamos com um quadro de fiscais que, na sua maioria, trabalha em regime de contrato de curta duração em função da disponibilidade financeira, número insuficiente para cobrir toda a extensão territorial da província”, disse João Domingos, sublinhando que, embora seja uma zona de intensa exploração de madeira e carvão, o município do Kuimba está privado de fiscal.

O chefe de Departamento Provincial do Instituto de Desenvolvimento Florestal no Zaire considera que o primeiro fiscal para a conservação da flora e da fauna deve ser o próprio membro da comunidade.

“O uso racional da floresta para sustento, mesmo a subtração de lenha ou madeira para construção de uma casa, deve obedecer a lei e critérios. Por isso, o primeiro fiscal deveria ser o próprio membro da comunidade rural”, concluiu João Domingos.

 Ignorânciae caça furtiva

A ignorância de alguns cidadãos, a caça furtiva e o habitual modelo de preparação dos campos agrícolas são no entender de Ketuzaioko Pinda as principais causas das queimadas que devastam a região. “As causas são várias, podemos apontar a caça furtiva e as práticas do passado para preparação de campos agrícolas, que do ponto de vista científico acarretam hoje graves consequências ao ecossistema”, afirmou.

Bastante preocupado com o evoluir da situação, Ketuzaioko Pinda fez questão de mencionar que as florestas densas da província não foram atingidas pelas queimadas. “As florestas densas não têm sido afectadas pelas queimadas. Temos estado a fazer o acompanhamento com as administrações dessas zonas de protecção e até agora não se verificou nada que diga o contrário”, enfatizou.

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